20 de janeiro de 2015

Ouvindo conversa alheia

gosto de preencher as lacunas da vida real com ficção

– hoje tava o caos issaqui.
– que rolou?
– aquela hora pô. os carro estacionado tudo fora da vaga, fila dupla, tava empacando passagem, pra sair tinha que dar a volta no eixo.
– é merda mermo quando rola.
– esses pinta aí não querem saber. Bota o carro como der, vai trabalhar e esquece tudo pra trás.
– tu viu a senhorinha?
– vi. Tava berrando alto ali de dentro do carro.
– acho que ela passou mal.
– foi? Também, com esse sol da porra.
– tava pedindo socorro pra jesus no final. botou o banco pra trás e começou a pedir ajuda pra jesus.
– pode até ser, mas na hora que ela gritou tava com o capeta no corpo.
– se tava.

Chimamanda Ngozi Adichie
8 de janeiro de 2015

O perigo da história única

“Aos sete anos… eu escrevia exatamente o tipo de histórias que eu estava lendo: Todos meus personagens eram brancos e de olhos azuis, brincavam na neve, comiam maçãs, e falavam muito sobre o tempo: Como era bonito o sol quando ele aparecia. Eu vivia na Nigéria; nós não tínhamos neve, comíamos mangas e nunca falávamos sobre o tempo, porquê não era necessário. O que isso demonstra é como somos impressionáveis e vulneráveis face a uma história, particularmente quando somos crianças. Na infância eu só tinha lido livros nos quais as personagens eram estrangeiras. Eu convenci-me de que os livros, por sua própria natureza, tinham que ter estrangeiros, e tinham que ser sobre coisas com as quais eu não podia me identificar. Eu amava aqueles livros ingleses e americanos, eles mexiam com minha imaginação e abriam novos mundos para mim. Mas a consequência inesperada foi que eu não sabia que pessoas como eu podiam existir na literatura.”

Chimamanda Ngozi Adichie, Novelista

Assista o video. Tem legendas para português.

Amores Perros
6 de janeiro de 2015

Guillermo Arriaga: As grandes questões

Eu tenho uma filha, Mariana, e um filho, Santiago. Quando Santiago fez 4 ou 5 anos, ele me perguntou: “Se eu morrer, você ainda vai rir? Ainda vai brincar?” – Eu não sabia o que responder a ele.

Mari Carmen, minha cunhada, havia perdido seu filho de dois anos afogado em uma piscina. Quando eles o encontraram, já era tarde. Ela e o marido sofreram uma dor enorme perdendo a criança. Mas a vida prosseguiu; eles tiveram outras crianças, e três anos depois ela voltou a rir e brincar novamente. Meu filho não entendia como isso poderia acontecer, como alguém poderia sorrir novamente depois de uma perda tão terrível.

Uma vez eu levei Mariana e Santiago para o set de Amores Perros. Eu queria que eles vissem a cena do acidente de carro. Três semanas antes eles haviam visto, sem a minha permissão, o filme IT, sobre um palhaço assassino. Eles tiveram pesadelos por toda a noite, então eu queria mostrá-los que filmes não eram reais, que eram apenas uma representação da realidade. Eu queria que eles vissem o sangue falso, o fogo falso, Gael Garcia e Goya Toledo atuando, não morrendo de verdade.

Amores Perros

Amores Perros

A cena foi brutal. Aqueles que assistiram ao filme sabem do que estou falando. No meio da cena Mariana, com 7 anos, me perguntou se podíamos sair para caminhar. Eu estava empolgado e não queria sair do set, mas ela implorou. Ela estava chocada e queria escapar dali, então nós começamos a andar, segurando as mãos. Então ela parou e me perguntou:

“Porquê você está fazendo um filme tão horrível?”
“Meu amor” – eu respondi. “Eu escrevi esse filme”.
“Porquê você escreveu isso?”
“Porquê é o que estava no meu coração”
Ela me encarou por alguns segundos. – “Que coração horrível você deve ter”, ela disse.

Eu escrevi esse filme como uma resposta a pergunta de Santiago, para mostra-lo que não importa quão terrível seja a morte de uma pessoa querida, o poder da vida é muito maior. A vida pode curar a sí mesma. No fim, a vida continua.

Eu também escrevi para mostrar a Mariana que o que tenho eu me coração, talvez seja horrível, talvez não. Ela vai saber dizer quando tiver idade o suficiente para ver estes filmes, ou quando ela puder ler minhas novelas. Mas horríveis ou não, minhas histórias são sempre escritas para o coração.

GUILLERMO ARRIAGA (CIDADE DO MÉXICO, 13 DE MARÇO DE 1958) É UM ESCRITOR, CINEASTA, PRODUTOR CINEMATOGRÁFICO E ROTEIRISTA MEXICANO.

GUILLERMO ARRIAGA (CIDADE DO MÉXICO, 13 DE MARÇO DE 1958) É UM ESCRITOR, CINEASTA, PRODUTOR CINEMATOGRÁFICO E ROTEIRISTA MEXICANO.

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