28 de outubro de 2014

Quando eu posso, vou ao teatro

Quando eu posso eu vou ao teatro. Pra ver gente de mentira falando a verdade. Estou cansado de ver gente de verdade falando mentira.

- ouvi por ai
Shyamalan - capa 01
14 de outubro de 2014

A inconstante filmografia de Shyamalan

Autor de grandes acertos e grandes erros cinematográficos, o diretor que se tornou famoso pelo sucesso com o suspense ‘Sexto Sentido’ teve uma carreira marcada pela sutileza com que trata de temas humanos inseridos em histórias fantásticas de um suspense bem trabalhado, mas também com desvios de carreira por escolhas questionáveis em termos coerência, como a filmagem da aventura juvenil Mestre do Ar.

Nascido em uma pequena cidade da Índia, o jovem Manoj Shyamalan mudou-se ainda criança para os Estados Unidos, e cresceu em Filadélfia. Na adolescência ganhou uma câmera Super 8 e foi infectado pelo vírus do cinema. O pai queria que o jovem Manoj fizesse medicina, mas o garoto acabou sendo tragado pelo cinema.

Anos depois, frequentando a Universidade de Nova Iorque, ganhou o apelido de M. Night, e adotou o pseudônimo peculiar: M. Night Shyamalan, já uma referência ao lúgubre e sombrio da preferência pelos filmes de terror. Mas havia o pecado capital da vaidade. Shyamalan sempre faz uma ponta nos  próprios filmes, e mesmo diante de sucessivas derrotas, gosta de estar também em evidência nos holofotes. Chegou a circular um hoax na internet com um documentário falso ( The Buried Secret of M. Night Shyamalan ) para o qual foram convidadas celebridades a falar sobre o aspecto misterioso da figura de Shyamalan. O que parece uma inteligente jogada de marketing, soou de forma antipática e presunçosa. Talvez seja uma fonte da má-vontade dos críticos americanos em elogiarem seu trabalho. Apesar de tudo, a carreira de Shyamalan parecia promissora.

Sexto Sentido

Sexto Sentido – Duplas improváveis sempre rendem os melhores filmes

Shyamalan impressionou o mundo com seu primeiro filme de sucesso comercial, “Sexto Sentido”. Classificado como um clássico instantâneo. Comparado a Alfred Hitchcock e Stanley Kubrick, a carreira do diretor prometia muito. Foram seis indicações ao Oscar, mas não levou nenhuma estatueta. O filme acumulou 33 indicações a prêmios ao longo de sua carreira e foi premiado 30 vezes em festivais de todo o mundo. Consequentemente as expectativas do público foram jogadas para o alto para seu próximo filme. Muitos dos grandes diretores falam sobre expectativas do público e da urgência da auto-superação. Essa emergência alavanca a arte e a criação humana a níveis extraordinários, mas ao mesmo tempo apavora e pode se tornar um fardo ou até mesmo aniquilar uma carreira, caso fuja do controle.

É Inevitável mencionar Federico Fellini, na onírica sequência inicial do filme 8 e ½. Marcello Mastroianni , o alter-ego de Fellini, é o motorista (dirige) um carro que está preso em um engarrafamento. As pessoas dos carros ao lado olham para ele como se aguardassem alguma atitude, e o ambiente cada vez mais opressivo e sufocante. Ele tenta escapar, sem ar, entrando em desespero. As pessoas apenas observam. O silêncio absoluto e a opressão do ambiente transformam-se em uma pacífica ventania quando o motorista consegue escapar de seu carro, abre os braços e sai flutuando sobre os carros. Liberta-se dos olhares ansiosos e da expectativa criativa. Creio que não há melhor simbolismo para a libertação em toda a história do cinema. Não é mera especulação crer que essa cena seja uma metáfora para a necessidade de libertação de um diretor sobre as expectativas do público. 8 e ½ foi feito em 1963. Em 1960 Fellini havia realizado uma obra prima do cinema: “A doce vida”. Na época, “A Doce vida” foi um marco cinematográfico, tornou-se o filme mais importante da década alcançando o status de ser uma revolução estética do cinema italiano, ao mesmo tempo em que alcançava sucesso comercial absoluto por todo o mundo. O que poderia ser feito de melhor do que isso? O mundo esperava algo mais daquele diretor fantástico.

Guardadas as devidas proporções, não quero comparar Shyamalan com Fellini, apenas fazer uma alusão que permite compreender melhor o que se passa com um sujeito que cria um longa-metragem que subitamente é transformado pela crítica e pelo público em um marco do cinema. O que o público esperava desse diretor? O que Shyamalan esperava de si mesmo?

As pressões foram enormes e o medo do fracasso pode ser maior do que o prazer da grande Vitória. Shyamalan mostrou-se grato pelo início de carreira bem sucedida, mas nunca deixou de pensar na possibilidade de derrota durante todos os seus filmes.

O próximo filme de Shyamalan foi “Corpo Fechado”, um filme interessante, no entanto não o suficiente para se equiparar a sexto-sentido, apesar de ter sido reverenciado pela crítica Européia, entrando em algumas listas de melhor filme do ano, no período.  E as expectativas do público foram jogadas para o chão. Shyamalan conta que este foi seu filme mais difícil: “senti que não conseguiria fazer nada como planejado. Houveram cerca de 400 cortes de cenas no filme e eu passei a maior parte do tempo me sentindo miserável e desequilibrado”.

Corpo Fechado - uma história sobre super-heróis, sem a grandiosidade e espetacularização tradicionalmente associadas a esse tipo de trama

Corpo Fechado – uma história sobre super-heróis, sem a grandiosidade e espetacularização tradicionalmente associadas a esse tipo de trama

Em um relato íntimo, Shyamalan conta que sentiu haver fracassado quando estava em uma loja de discos e foi reconhecido por dois garotos. “Olha, é o Mr. Night Shyamalan”, disse um deles. E o outro respondeu: “É, mas Corpo Fechado foi uma merda!”. Ele conta que saiu da loja sem dizer nada. Bruce Willis o aconselhou e ajudou a superar o trauma do primeiro fracasso diante do público: “Ele é como um irmão mais velho, eu devo tudo a ele”, contou Shyamalan, sobre o ator. Na época, sentiu vergonha do próprio filme, e durante muito tempo, Corpo Fechado foi a história da qual mais sentiu vergonha. “Mas agora, eu acredito que é meu favorito”, diz.

Shyamalan deve ter aprendido algumas coisas nesse período. Nas palavras dele: “Fracasso é a melhor coisa que pode acontecer com você. Eu fui honrado pela oportunidade e me sinto honrado todos os dias”.

Depois de Corpo Fechado, Veio “Sinais”. É provável que parcela do público ainda tivesse altas expectativas sobre Shyamalan, mas eu já sabia o que esperar dele: uma direção competente, um roteiro bem trabalhado com sutilezas que não serão perceptíveis para a maior parte do público, uma história fora do convencional, personagens envolventes. Mas não esperei nenhuma genialidade assombrosa. Por este motivo, “Sinais” me agradou bastante. Uma invasão alienígena contada do ponto de vista de uma família. É quase minimalista a forma como ele trata o tema, e eu até compreendo o motivo da decepção do público. A esposa de Shyamalan leu o roteiro antes do filme ser produzido, na época, e disse que foi a pior história que ele tinha escrito. Ainda assim não o dissuadiu. O público quer ver aliens de aspecto bizarro, explosões e invasões a terra como em Independence Day, o filme não é nada disso, a invasão extraterreste é o motivo pelo qual o filme apela ao público, mas ao mesmo tempo este motivo é apenas o pano de fundo. O filme soa como uma produção independente. Sem exageros, sem firulas. Isso pode ser frustrante para alguns.

A maneira de Shyamalan contar histórias subverte gêneros, e isso quebra expectativas. Ele não entrega o que o espectar está esperando ver. Ao mesmo tempo em que é original, pode ser frustrante para a maior parte do público, incapaz de apreciar inovações.

A maneira de Shyamalan contar histórias subverte gêneros, e isso quebra expectativas. Ele não entrega o que o espectar está esperando ver. Ao mesmo tempo em que é original, pode ser frustrante para a maior parte do público, sem nenhum interesse em apreciar inovações.

Em “A Vila”, da mesma forma, o marketing propagado é: um filme de horror sobre um monstro assombrando uma vila. Mas o filme não é sobre isso, o filme é um romance sobre uma garota cega que desperta para a possibilidade de que o mundo não se resume a mediocridade e a pequenez de sua existência em uma pequena vila, mas o medo a impede de sair dali. Convenhamos que é profundidade demais para uma história sobre monstros, mas é justamente este o tempero especial dos bons filmes de Shyamalan. A capacidade de tratar assuntos densos dentro de uma trama com ares de fantasia. Não gosto de “Dama das águas”, acho um filme fraco e tedioso, por isso me sinto incapaz de analisar a obra com maior interesse.

Até hoje fico impressionado com as reações de ódio que as pessoas tem em relação a alguns filmes de Shyamalan. Geralmente quem não gosta, não simplesmente desgosta do filme, mas passa a odiá-lo. Isso sempre me intrigou porquê é difícil permanecer indiferente a um filme destes.

Até hoje fico impressionado com as reações de ódio que as pessoas tem em relação a alguns filmes de Shyamalan. Geralmente quem não gosta, não simplesmente desgosta do filme, mas passa a odiá-lo. Isso sempre me intrigou porquê é difícil permanecer indiferente a um filme destes.

Em “Fim dos Tempos”, filme odiado por muitos, o que vejo é novamente a boa e velha sutileza. O filme é uma homenagem aos filmes de terror dos anos 1950, os filmes B. Eram filmes de baixo orçamento, e os temas transitavam sobre os grandes medos da sociedade: Era período de Guerra Fria, os filmes falavam, por exemplo sobre consequências bizarras da exposição a radiação. Haviam filmes sobre aranhas, moscas e formigas gigantes. Haviam muitos filmes sobre invasões alienígenas, pois foi um período em que o homem começou a observar o espaço com mais atenção, e a pensar sobre exploração de planetas, entre outras coisas. O medo dos dias de hoje está mais relacionado ao abuso na exploração da natureza, e quais consequências sofreremos caso a natureza se revolte. Não é a toa que exista um grande crescimento de filmes sobre catástrofes naturais: furacões, terremotos, tsunamis. A natureza contra o homem.

Fim dos tempos, uma homenagem aos filmes B das décadas de 1940 e 1950, traz várias cenas típicas desse tipo de filme. Me lembro do crime de Paranóia quando os personagens entram na casa de uns senhores que os abrigam. O filme sai do assunto natureza X homem e entra no suspense paranóide imediato.

Fim dos tempos, uma homenagem aos filmes B das décadas de 1940 e 1950, traz várias cenas típicas desse tipo de filme. Me lembro do clima de Paranóia quando os personagens entram na casa de um casal de senhores que os abrigam. O filme sai do assunto natureza X homem e entra no suspense paranóide imediato.

Em “Fim dos tempos”, a extinção das abelhas provoca um efeito em cadeia que acaba afetando os seres-humanos de forma direta. Quando os seres humanos são atingidos por uma porosidade emitidas pelas plantas, eles perdem suas consciências e cometem suicídio voluntário. A trama é no mínimo bizarra, mas isso é uma característica dos filmes B. Este tipo de filme de terror gira em torno dos medos primais do ser-humano: o asco, o terror pelo desconhecido e o vazio, a falta de poder e controle diante de algo muito maior. Desse ponto de vista, Shyamalan fez um grande filme, uma bela homenagem aos filmes B da década de 1940 e 1950 e ainda assim revitalizado para os tempos modernos em cima de um perigo cotidiano: As abelhas estão lentamente se extinguindo. A abelha é o animal responsável pela polinização de 80% dos cultivos do planeta. Sem polinização não há reprodução da flora, sem flora não há fauna, sem fauna e sem flora não há raça humana. O que o filme de Shyamalan fez foi, mais uma vez, captar a essência desse medo e transformar a ideia em um filme. A trama é um pouco absurda? Sim. Mas e daí? Quão absurdas não são outras tramas que admiramos.  Sobre este filme, Shyamalan disse:

“Tivemos uma sessão de estréia onde algumas pessoas se assustaram e outras simplesmente não entenderam. Eu pensei: Quando vou fazer um filme em que todos vejam o mesmo filme quando forem assistir?”.

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Apesar disso, os fracassos de crítica e de público ainda geravam uma filmografia interessante, digna de ser revista anos depois sob uma nova ótica. Nem todas obras são admiradas em seu tempo. O distanciamento é saudável neste caso. Mas aparentemente Shyamalan estava ansioso por aceitação e popularidade.

Em 2010, Saleka Shyamalan, a filha do diretor, estava com 14 anos. Por coincidência ou não, foi o ano em que o diretor lançou “O último mestre do ar”, um filme baseado em um desenho animado de sucesso entre crianças e pré-adolescentes. Por mais que a carreira do diretor de filmes de suspense não fosse bem acolhida por muitos, a decisão de direcionar a carreira para o público infantil pode ter sido um passo arriscado demais. A péssima bilheteria e o acúmulo das críticas negativas tornou o diretor ainda mais impopular. O filme seguinte foi outro fracasso, “Depois da Terra”, um filme insosso com Will Smith e o filho Jaden Smith.

Hollywood não perdoa muitos erros e as chances do diretor de voltar a fazer grandes filmes diminui a cada passo em falso. Apesar de alguns fracassos, a carreira continua prolífica. Em 2014 filmou o longa de micro-orçamento “Sundowning”, a ser lançado ano que vem, e também dirigiu o piloto da série de suspense “Wayward pines”.  Em 2015 ele retorna como diretor, trabalhando novamente com um de seus atores preferidos, Bruce Willis. O filme se chamará “Labor of Love”, mas dessa vez retorna ao que Shyamalan sabe fazer de melhor, uma narrativa pequena mas repleta de profundidade humana.

Talvez a falta de dinheiro, a impopularidade e a capacidade de caminhar na corda bamba da derrota sejam ingredientes essenciais para a filmografia alguns cineastas.

gaorto---blog-kinolatras
13 de outubro de 2014

Flanando no Rio de Janeiro

Passei uma tarde flanando sem pressa pelas ruas de Botafogo e Flamengo, no Rio de Janeiro. Enquanto aguardava pela saída do meu vôo, buscava motivos para fotografar. Vi esse garotinho rodando no poste, dei a volta para conseguir um ângulo melhor enquanto puxava a câmera da bolsa e fiz este clique.

Vin Diesel 02
7 de outubro de 2014

Vin Diesel e o difícil ingresso no cinema americano

Vin Diesel ( Mark Sinclair Vincent, ator, roteirista e produtor ) pode não ser conhecido como um dos grandes mestres da atuação,mas a história de sua entrada no cinema é curiosa e revela um pouco da ambição do sujeito.

Vin diesel Young

Ainda jovem, Diesel construía uma carreira promissora no teatro, mas não conseguia impressionar ninguém no mundo do cinema. Depois de várias tentativas em NY, ele voltou para casa frustrado com sucessivos fracassos. A mãe, percebendo as tentativas e erros do filho, deu-lhe de presente o livro “Feature Filmmaking at Used-Car Prices“, de Rick Schmidt. Um livro sobre como fazer filmes de baixo orçamento, em tradução livre, algo como “estréie como realizador de filmes pelo preço de um carro usado”. Rick Schmidt é um realizador americano que participou de diversos festivais de cinema lançando filmes a la Dogma 95. O livro continha ensinamentos do tipo:

“não é o equipamento que faz um bom filme, é o que você faz com ele”

O livro foi uma abertura na mente de Vin Diesel. Ele resolveu filmar um curta-metragem com apenas 3 mil dólares. Escreveu um roteiro em apenas cinco dias. Em menos de 3 dias realizou o curta-metragem semi-autobiográfico “Multi-Facial”. Chegou a compor até a trilha sonora. O filme fala sobre um ator que faz vários testes de elenco sempre fingindo um sotaque diferente, mas fica preso nessa etapa, sem nunca conseguir avançar. A eterna história de frustração artística que se repete dia-após-dia.

Depois de filmar, Diesel estava esgotado e quase abandonou o material na mesa de edição, mas o pai o estimulou a finalizar o que ele tinha em mãos e fazer algo com isso. Ele obedeceu, e depois de pronto o filme foi selecionado em Cannes. Spielberg estava na platéia e anotou em seu caderno o nome do ator. Como resultado, tempos depois, Spielberg escreveu um papel especificamente para Diesel, dando a ele sua estréia no cinemão, com o filme “Resgate de soldado Ryan”. Em um filme repleto de cenas incríveis, a morte de Diesel enquanto tantas coisas acontecem juntas, é um destaque neste grande clássico.

Empolgado com toda a atenção dada ao seu filme, Diesel voltou para casa e começou a escrever o próximo filme, dessa vez um longa independente chamado Strays. Uma narrativa sobre o traficante Rick em busca de sentido para sua vida.

Com a estréia do longa-metragem autoral, e com a abertura de portas iniciada por Spielberg a carreira de Diesel deslanchou no cinema comercial americano se tornando o herói de blockbusters que é hoje.

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