Tributo ao coitidiano
18 de fevereiro de 2015

Insiginificâncias ( I )

Às 10h34 da manhã Reinaldo escala a escadaria externa do topo de um colégio para reparar as antenas, a chuva bate fraca molhando perigosamente a tinta enferrujada da escada. “Deslizar dessa altura é uma queda e tanto” – pensa - “Imagina quebrar a espinha, com tanta dívida pra pagar. Resto da vida sem poder andar”. Enquanto o vento forte passeia pelo seu rosto e pequenas gotículas se formam em sua testa, aperta as mãos e abraça o metal encostando o peito na escada, agarra-se a vida tomado por um medo inédito em sua vida profissional.

Cibele falta a missa para enfiar dois dedos dentro calcinha debaixo do cobertor na preguiça fria da manhã. Trava contato visual com um coelho de pelúcia, no alto da prateleira, evergonhada, prefere manter os olhos fechados, dedos molhados.

Da janela do segundo andar em um prédio cinzento do Plano Piloto, uma dona de casa observa hipnotizada: a grande árvore balança na ventania. O eco do ronco do marido ecoa pelos corredores, na estante há fotos amareladas de crianças com roupas da década de 1980. Ela pede perdão a Deus por um pensamento trágico que veio e foi-se sem querer.

Saulo senta-se com o notebook no colo, pronto para passar as próximas horas fabricando montagens engraçadas de photoshop, piadas de ódio contra as minorias “estúpidas” que votaram no governo reeleito e os escândalos de corrupção dentro de uma grande estatal. Há um copo com suco de laranja de caixinha e algumas bolachas mabel para não sentir fome. “Quanta coisa boa eu poderia estar fazendo lá fora…”, pensa enquanto o computador gasta tempo para carregar, mas o pequeno lapso é facilmente ignorado pelo prazer de escutar o som de inicialização do sistema.

Luana estuda direito constitucional em seu quarto fechado, decide que viajar sozinha é um risco que ela precisa correr antes de se entregar a vida funcional. Mordisca a ponta da caneta, lábios tingidos de tinta azul.

Do outro lado da cidade um radialista narra uma partida de futebol, para ele as crianças brasileiras estão comprando muitas camisas de times internacionais, idolatrando-os. “As crianças precisam de novos heróis nacionais”, ele acredita. E toma uma água para limpar a garganta. “Ninguém precisa de heróis”, alguém comenta com desdém, de passagem para o banheiro.

Um caixa registrador lamenta por trabalhar em pleno domingo: “Hoje era dia de fazer farofada no parque da cidade, era legal quando ficava todo mundo junto.” Volta aos cálculos para devolver o troco correto, o cliente sai, a porta se abre, som de crianças, pássaros, vento e céu cinzento, a porta se fecha, ar condicionado.

Leandro e Cíntia trocam sussurros sonolentos enquanto ouvem o rádio da casa do vizinho tocar música popular. Leandro resiste até onde dá… fecha os olhos. Vendo-o dormir Cíntia prefere engolir o que tem a dizer: “Eu te amo…”; – quem sabe em outra hora melhor?

Bernardo dormiu com a TV ligada, ele deu uma entrevista para o jornal local e acabou de acordar sem entender que dia é hoje, está confuso sobre se vai aparecer hoje ou amanhã no jornal da hora do almoço. Três ligações não atendidas, uma delas sobre a morte de seu avô.

Bianca corta o dedo preparando o almoço. Ela gostaria de sentir algo, mas desaprendeu a chorar.


Imagens do livro Tributo ao Cotidiano, de Jamison Pedra

Sanguinetti - peq
13 de fevereiro de 2015

Comentário da fotógrafa Alessandra Sanguinetti

“Sempre que filmava tinha a impressão de ter perdido uma grande pose estática, e sempre que fotografava pensava ter perdido uma conversa curiosa, nunca me satisfazia completamente”

A fotógrafa Alessandra Sanguinetti conta sobre o ensaio fotográfico que fez na Argentina em janeiro de 1999 com estas duas meninas, Guille & Belinda. (Veja mais)

11 de fevereiro de 2015

Ludus naturae

“O universo quer brincar. Aqueles que por ganância espiritual se recusam a jogar e escolhem a pura contemplação negligenciam sua humanidade – aqueles que evitam a brincadeira por causa de uma angústia tola, aqueles que hesitam, desperdiçam sua oportunidade de divindade – aqueles que fabricam para si máscaras cegas de Idéias e vagam por aí a procura de uma prova para sua própria solidez acabam vendo o mundo através dos olhos de um morto.”


 

- do livro CAOS, Terrorismo Poético e Outros Crimes Exemplares de Hakim Bey* a natureza do jogo )

Dinossauro CAPA
10 de fevereiro de 2015

Um sonho com dinossauro

Ac0rdei com um dinossauro desses de 2 metros, pele grossa de um verde musgo e focinho enorme com dentes afiados, tentando entrar pela minha janela. Acordei rápido e fui apressado para o banheiro. Lavei o rosto, escovei os dentes na metade do tempo que costumo levar. Espiei pela porta do banheiro, com a escova ainda na boca, e ele estava quase abrindo a janela com o focinho. Cuspi na pia, joguei uma água na boca e corri de volta pro quarto. Os bracinhos dele eram pequenos como os de um tiranossauro e as patas traseiras eram enormes, andava como um bípede, mas meio inclinado. Tinha uma longa cauda espetada que equilibrava o corpo, parecia um pouco o Bob, da família Dinossauro, mas era mais raivoso e assustador, e queria carne. Escolhi rapidamente uma camisa social, não tinha nenhuma bem passada, fui como pude, não tinha tempo para escolher, peguei uma calça jeans da gaveta e sai apressado do quarto trancando a porta atrás de mim, enquanto o dinossauro finalmente conseguia atravessar a janela. Ele corre até a porta, onde estou de costas, do outro lado, impedindo que ele passe. Encosto uma cadeira na porta e vou correndo para a cozinha. Não tem nada na geladeira, preparo uma vitamina de laranja com cenoura, jogo um pouco de açúcar e misturo com colherzinha de chá. Pego uns biscoitos de dentro do armário. O Dinossauro empurra a porta com cadeira e tudo e vêm na direção a cozinha, corro para a sala e tranco a porta da cozinha, como ele vêm muito rápido, ele enfia o focinho na porta para tentar pegar um pedaço do meu braço, mas eu tiro o braço a tempo, pego um jornal que estava largado no chão e bato no focinho dele. Assustado ele se retrai, tranco a porta da cozinha, como não tinha chave, eu apenas deixo a maçaneta fechada. Vou para a sala e ligo a TV, sento no sofá enquanto como meu biscoito velho que se derrete na boca com o suco de laranja e cenoura. O dinossauro continua batendo na porta, quebrando a madeira e ignorando meus pedidos de “para com isso”, quase não posso ouvir o que diz a TV. Sinto que estou atrasado, não vejo relógios pela casa, mas tenho essa sensação. Nem sei para quê estou atrasado, mas devo ter algum compromisso importante. A campainha toca. Pego minhas chaves e abro a porta da sala. Uma súbita sensação de esquecimento, preciso de algo que está no meu quarto. Então saio pela porta da sala, dou a volta e entro pela janela do meu quarto, pego uma bolsa amarela, cheia de apetrechos. Ao ouvir o som dentro do quarto o dinossauro esfomeado atravessa a casa atrás de mim. Pulo de volta a janela antes que ele entre no quarto, dou a volta na casa e volto para a sala, corro para a cozinha, abro a geladeira e jogo uma carne no chão, ao menos para deixá-lo alimentado. A campainha toca novamente. Corro para a sala. Ouço o dinossauro devorar a carne como quem engole uma ervilha, faz um som engraçado quando levanta o pescoço para engolir a comida. O chão da sala está todo cheio de saliva, parece que ele está animado para pegar mais carne, saio pela porta da sala e uns amigos estão ali na frente me esperando para jogar. Saímos conversando sobre amenidades.


 

 A seguir ilustrações do livro “Dinosaurs Dream”, de Denis Nolan – me lembrou um pouco do meu sonho

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