Frame de O Amador, filme de Krystof Kielowski
27 de abril de 2015

Um viva para o registro do ordinário

Estava aqui assistindo a uns video arquivos que tenho guardados. Coisas que filmei aleatoriamente: família, amigos, dia-a-dia de pessoas muito próximas.

Me faz lembrar de uma coisa importante. O video tem outra função, além da artística, tem a função de registro, memória. Isso me faz lembrar do filme “O AMADOR”, (Krzysztof Kieślowski) sobre um homem que compra uma câmera para registrar o nascimento do filho. Empolgado com a Super 8, ele passa a filmar também o cotidiano da empresa onde trabalha, da cidade, dos conhecidos.

Certo dia a mãe de um amigo de Philip (o protagonista) morre e Philip passa para o amigo os registros que ele fez da mãe, em um dia comum. Era um simples registro banal de um momento em que ela estava acenando na varanda. Nada demais, porém, diante da impossibilidade da morte, e da incapacidade da memória, o video seria a reprodução mais fiel capaz de fazer com que o homem sentisse que a mãe dele estava lá, enquanto durasse o trecho do filme. Foi comovente.

Essa cena me fez perceber como a câmera é um artefato mágico e poderoso. Gasto meus dias filmando, eu trabalho com isso. Filmo o dia a dia de políticos, de gente importante. Mas esses homens de terno perdem a essência individual e pessoal diante de tanta visibilidade. Eu vejo muito mais potência em uma filmagem banal de uma pessoa comum durante um dia qualquer de sua vida. Pessoas que não almejam a grandiosidade, mas tem sonhos particulares, como qualquer indivíduos. Suas conquistas mundanas são importantes apenas para elas e para as pessoas mais próximas. Esse registro do mundano, do “desimportante” é muito mais vigoroso e alimenta meu espírito.

O poder da capacidade do filme de emocionar diante da morte de um indivíduo ficou evidente quando aconteceu o falecimento do querido amigo Pingo. Eu tinha feito um video sobre ele e sua filhinha Alice, eu já achava aquele registro único e forte, pela vivacidade que consegui capturar num improviso dos dois. Mas quando ele faleceu, aquele filme ganhou outra dimensão, entrou para o album de fotos de familiares e amigos. Uma marca viva de quem era o homem, de como ele agia, como ele se movimentava, falava e raciocinava. Se algum dia alguém perguntar como era o Pingão? Eu mostraria aquele video, sem medo de errar.

O video revela a espontaneidade do jeito de ser e agir, inexprimível por qualquer outro tipo de registro que não a imagem em movimento.

Sabe, com esse poder todo, dos registros banais, pouco me importa a busca de muitos artistas, de encontrar a imortalidade sagrada com uma obra artística majestosa. Eu nunca busquei a grandiosidade megalomaníaca. Minha busca é mundana, banal, quando estou inspirado eu posso enxergar o valor infinito de algumas pessoas e fico feliz de ter registrado a essência de algumas delas, da melhor forma que eu pude. Um viva para as inesgotáveis possibilidades do registro do ordinário.

Older Posts