18 de novembro de 2014

Cinema Mexploitation e os Mariachis mercenários

Eu estava tentando entender como foi que gostei tanto de “Balada do Pistoleiro” da primeira vez que vi este filme no cinema. Porquê lembro de ter gostado muito mesmo do filme, mesmo sendo apenas um Bang Bang aparentemente ingênuo e exageradamente violento.

A Balada do Pistoleiro (1995), de Robert Rodriguez

A Balada do Pistoleiro (1995), de Robert Rodriguez

Eu tinha uns 19 anos, e estava começando a pensar em filmes de um ponto de vista técnico e gostava da possibilidade de criar filmes não-realistas que flertassem com o besteirol e violência estilizada, elemento pelo qual Tarantino (Amigo de Rodrigues e personagem de Balada do Pistoleiro) ficou bastante popular anos depois. Logo nas primeiras cenas percebe-se uma aproximação do herói ousado, galanteador e cafona, clássico do imaginário das telenovelas mexicanas, mas ao mesmo tempo há um clima de velho-oeste com história em quadrinhos que torna a coisa toda muito pop. O personagem Desperado não tem profundidade, mas é “Cool”, e nesse contexto isso é o que importa. O som dos tiroteios preencheu a sala, e eu fui fisgado para dentro do jogo cinematográfico logo na canção do Mariachi. Quando você entra nas regras do filme, o bizarro, o exagero, e até o implausível deixam de incomodar e passam a se tornar aceitáveis dentro daquele universo construído na tela. O filme tinha estilo, a preocupação não era substância nem profundidade dos personagens, mas a forma cinematográfica, a beleza da construção dos planos e o banho de sangue quase escatológico. Quando terminou o filme minha cabeça tinha explodido.

Bom, primeiro tem o fato de que assisti o filme no cinema, dependendo do dia e da disposição do espectador, pode-se cair facilmente no deslumbramento da tela grande, mas tem algo mais nesse filme, ele debocha respeitosamente do estilo de filmes de tiroteio e exploitation mexicano, o Mexploitation. Eram clássicos dos anos 1970, coisa que Robert Rodriguez explorou mais de uma vez em sua carreira – A balada do Pistoleiro faz parte da trilogia do México, composta pelo antecessor “El Mariachi”, e pelo terceiro filme “Once Upon a Time in Mexico”. (Há também Planet Terror e Machete na linha do Mexploitation) . Todo diretor que faz referência a filmes B tem meu respeito. Os Mexploitation eram filmes de baixo orçamento, muitas vezes utilizavam os Luchadores como protagonistas, ou então atores desconhecidos, e os temas giravam em torno do narcotráfico, sexo e violência. Em A Balada do Pistoleiro, o uso do tema é menos histriônico do que nos outros filmes de Rodriguez, e por isso considero um filme muito superior aos que vieram depois.

Esse senso de humor de manipular o clichê fica explícito logo nos primeiros planos do filme quando o nome “Desperado” aparece rabiscado de vermelho gritante na tela com aquela tipografia brega, sem deixar de ser fodona. Naquele momento sabemos que este não é um filme genérico. Filmes desse tipo não são mais feitos, mesmo em 1995, data de seu lançamento. Há algum propósito estético subversivo (ou no mínimo inteligente) em termos de linguagem, para se lançar um Mexploitation mais de 20 anos depois de uma moda que já morreu, dentro de salas de cinema comerciais.

"When the smoke clears, it just means he's reloading" WOOOW

“When the smoke clears, it just means he’s reloading” WOOOW

Há também a brincadeira com o inusitado, a história de guardar uma coleção de armas dentro da mala, e do pistoleiro ter um grupo de amigos Mariachis que são na verdade mercenários. Lembro de vibrar no cinema quando surgem outros dois Mariachis em cena, cada um com suas armas secretas – Uma bazooka dentro da caixa de violão!!! -, e o clima para o combate vai sendo construído. Balada do Pistoleiro não é um filme ingênuo, é pensado para prestar homenagem ou ao menos fazer referência a outros filmes do gênero. Sem contar que essa música de abertura é sensacional, e tem algumas cenas de tiroteio que nunca sairão da memória.

El Mariachi: Carolina, did I thank you? Carolina: No. El Mariachi: I will.

El Mariachi: Carolina, did I thank you?
Carolina: No.
El Mariachi: I will.

Há também a figura do pistoleiro caladão e misterioso que gostamos tanto de ver, personificado, por exemplo, por Clint Eastwood. Antonio Bandeiras fez um personagem marcante, mesmo que não mereça um oscar por isso. E ao lado dele a latina fatal ‘Carolina’, pela qual é impossível não se apaixonar, interpretada pela magnífica mexicana Salma Hayek.

Por toda essa mistura e pelo deboche do clichê de filme de bang bang, agora entendo porquê sai tão impressionado do cinema.

14 de novembro de 2014

Eu bem queria fazer um travesseiro dos seus braços

Me esticaria procurando o canto mais confortável do travesseiro nos braços dela. O ponto exato por onde pudesse despencar a cachoeira de letras entoadas em sussurros cadenciados, escoando para dentro da minha caixola sonolenta. Acalentado, minhas pálpebras perdem a firmeza da vigília. Derrubado pelo perigoso encanto do carinho, aquele mesmo feitiço que derruba tanques de combate como pássaros com tiro de estilingue, alveja a febre de violência, e faz um bruto baixar a guarda para perder a guerra contra uma canção delicada.

 

janela
14 de novembro de 2014

Perambulando um dia em SP

Uma tarde depois do trabalho, um tempinho livre para passear perto da Estação Marechal Deodoro, ali entre Higienópolis e Barra Funda, onde estudei em 2006. Matando a saudade das velhas caminhadas e aproveitando pra registrar traços do dia.

Mais fotos em
https://500px.com/Cineasta81

9 de novembro de 2014

A velhinha

“Na rua tal, à beira da cidade mora a “minha velhinha”. Sempre que passo lá, detenho-me para dois dedos de prosa. Tão pitoresca! Ontem contou-me complicadíssima história de cabra, pata e ovo de pata, a que não prestei grande atenção. Hoje, voltando, insistiu no caso. Não pude deixar de rir-me. Mora só, e na sua pobreza, a pata que lhe dá ovos e a cabra que lhe dá leite constituem entidades importantíssimas, as mais importantes depois dos santos do oratório.

Um ovo que a pata ponha é acontecimento de encher o dia e abrir ternuras n’alma.

Mas que me contou ela da pata? Impossível recordar”.

– Monteiro Lobato

Kokrajhar Capa
4 de novembro de 2014

Passeando por Kokrajhar, Índia

Passeando pelo Google Street View, resolvi fazer turismo e perambular pelas ruas de Kokrajhar, uma cidadezinha da Índia. Na verdade, eu não cheguei a pisar na cidade grande, mas achei essa pequena vila, depois de uma longa caminhada pela estrada. A estrada estava cheia de fitas coloridas penduradas durante quase todo o percurso. Havia um caminho de rio, quase seco, cheio de pedras. O tempo estava úmido e cinzento, parecia que ia chover, mas não caiu um pingo. As ruas de Kokrajhar se parecem um pouco com algumas ruas brasileiras, exceto pela paisagem de montanhas frias.

Eu soube que no início do ano ( 2014 ), houve um massacre violento aqui na cidade. Várias pessoas foram assassinadas e vários corpos ficaram expostos na rua por horas após protesto violento de separatistas. Ainda bem que vim num período aparentemente pacífico. Pelo que eu soube, naquele período a polícia prendeu 22 rebeldes separatistas de um grupo que abriu fogo com armas automáticas contra moradores mulçumanos, queimou casas e matou dezenas de pessoas. Foi considerado um dos maiores rompantes de violência étnica na região nos últimos dois anos. Estas ruas aparentemente tranquilas estavam soprando fumaça e escoando sangue há poucos meses atrás.

 

A idéia do turismo virtual veio dessa garota aqui

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